Carla Rezende Dias
Após pouco mais de um século do nascimento da “jovem ciência” tal como Freud postulava a Psicanálise, observamos sua difusão para além dos consultórios particulares, locus por algum tempo privilegiado pelos psicanalistas. Freud em vários textos já apontava tal possibilidade:
(...) Sua significação original foi puramente terapêutica: visava a criar um método novo e eficiente para tratar doenças neuróticas. Vinculações que não podiam ser previstas no começo fizeram, porém, com que a psicanálise se ampliasse para muito além de seu objetivo original (...). (FREUD, 1925).
Diante de tal contexto, observamos a Psicanálise integrar os mais variados contextos institucionais, o que implica no diálogo com inúmeros saberes, como por exemplo, o direito, a educação e a medicina, dentre outros. “O psicanalista que convém, convive”, tal como Figueiredo (1997:68) postula.
Dentre estes saberes, pode-se dizer que a medicina possui um lugar privilegiado, pois possui uma relação intrínseca a própria história do movimento psicanalítico. Não podemos nos esquecer que Freud e Lacan eram médicos de formação - o primeiro neurologista e o segundo psiquiatra.
Entretanto, Freud rompe com a medicina do século XIX, traçando seu próprio caminho na busca da gênese dos processos mentais. Esse rompimento fez-se presente não só na esfera médica, mas em toda a discursividade da época, marcada pelo cientificismo.
Em "História do Movimento Psicanalítico"(1914) podemos notar os primórdios do afastamento de Freud da medicina através de suas divergências com Breuer. Estas têm início quando Freud começa a perceber que a medicina, ou seja - o discurso que ela traz em seu bojo - era insuficiente para explicar a origem de algumas afecções nervosas, neste caso a histeria:
Minha primeira divergência com Breuer surgiu de uma questão relativa ao mecanismo psíquico mais apurado da histeria. Ele dava preferência a uma teoria que, se poderia dizer, ainda era até certo ponto fisiológica; tentava explicar a divisão mental nos pacientes histéricos pela ausência de comunicação entre vários estados mentais (“estados de consciência”, como os chamávamos naquela época), e construiu então a teoria dos “estados hipnóides” cujos produtos se supunham penetrar na “consciência desperta” como corpos estranhos não assimilados.”. (FREUD, 1914:20)
Freud distancia-se ainda da ciência médica, pois sempre se mostrou a favor da prática psicanalítica por não-médicos como nos mostra no texto “A questão da Análise leiga” (1927). No texto, Freud indica que desde o início houve uma reação negativa da medicina em relação à psicanálise, de forma que chega a se perguntar se a tentativa dos médicos de apoderarem-se da psicanálise não levaria ao risco de a psicanálise ser destruída pela medicina (FREUD, 1927). Freud, portanto, temia que a inclusão da psicanálise na medicina poderia por em risco àquilo que tem relação à especificidade da Psicanálise, por isso a posiciona como uma psicologia.
Psicanálise e Medicina configuram-se como dois conjuntos de saber onde cada um possui suas especificidades: discursivas, de objetos de estudos, métodos; passíveis de serem entendidos à luz de sua história.
A medicina tal como a conhecemos hoje é fruto da ideologia da ciência positivista do século XIX. A medicina explica sua origem e condição atual dizendo que se tornou científica quando passou a ser empírica, afastando-se do campo teórico-especulativo. Ao rejeitar a atitude predominantemente teórica, a medicina moderna critica seu passado e para justificar sua originalidade, se apresenta como medicina científica.
Para pensarmos como se constitui esta medicina científica, utilizarei em especial o trabalho de Foucault Nascimento da Clínica (1977). Para esse autor (1977:12) a ruptura que se processou no saber médico não é devida basicamente a um refinamento conceitual, nem à utilização de instrumentos técnicos mais elaborados, mas a uma mudança ao nível de seus objetos, conceitos e métodos. O novo tipo de configuração que caracteriza a medicina moderna implica o surgimento de novas formas de conhecimento e novas práticas institucionais.
Esse novo tipo de configuração da medicina, Foucault (1977) acrescenta que se delineou com os estudos de anatomia patológica em fins do século XVIII, quando a disciplina adquiriu um fundamento objetivo, real de uma descrição de doenças. Entretanto, Lacan no texto “Psicanálise e Medicina"(1966) sugere que a medicina moderna teve início com a medicina experimental fisiológica de Claude Bernard, cujos estudos foram estudos posteriores à anatomia patológica. Seja uma - a origem tal como identificada por Foucault na anatomia patológica - ou a outra tal como identificada por Lacan – a fisiologia de Claude Bernard - ambas as rupturas foram fundamentais na mudança de posição da medicina frente à ciência.
Foucault assinala que, ao longo do século XVII, a medicina era marcada pela classificação, pela nosografia e pela botânica; a "doença recebia uma organização hierarquizada em famílias, gêneros e espécies". (1977:2). As doenças eram classificadas segundo sua essência pela comparação de sintomas. Esta medicina abstraía o doente para que a doença aparecesse na sua essência. A percepção era de que o doente atrapalhava, comprometia a classificação.
No século XIX, a medicina moderna deslocou-se de um espaço de representação, taxonômico, superficial, para um espaço objetivo, real, profundo; de um espaço de configuração da doença, considerada como espécie nosográfica, para um espaço de localização da doença, o espaço corporal individual. Neste deslocamento, emergiu uma nova linguagem. O que se transformou foi o modo da existência do discurso médico no sentido em que este não se refere mais às mesmas coisas, nem se utiliza da mesma linguagem.
Esse discurso médico que emerge da ciência fala de uma ausência da subjetividade tanto do agente (médico) como do outro (paciente). Daí a pretensa objetividade do cientista, que está calcada nesta abolição da subjetividade do autor. A partir do texto a Ordem do Discurso (2003), de Foucault podemos analisar o médico também enquanto autor de textos, ou seja, promotor de um discurso médico modernizado. Este autor pode ser entendido não somente como aquele que escreveu um texto, mas sim como nos aponta Foucault (2003:26): "(...) um princípio de agrupamento do discurso, como unidade e origem de suas significações, como foco de coerência”.
É interessante observamos que antes do século XVII as proposições só ganhavam relevância a partir de seu autor, que era quem lhes oferecia um estatuto científico. Em contraposição, no século XVII o "autor médico" apenas existe para dar um nome a uma síndrome, ou a uma vacina. (FOUCAULT, 2003:27)
É curioso pensarmos se o mesmo ocorre na psicanálise, ou seja, se as proposições tal como no século XVII adquirem relevância pelo autor – Freud, Lacan, etc. Sabemos que proposições procedentes destes autores para os psicanalistas possuem uma grande relevância. Entretanto, formula-se aqui apenas aqui uma hipótese, é preciso que outros estudos possam melhor investigá-la, o que não é possível realizar aqui.
Ainda sobre essa ausência do agente do discurso, podemos observá-la com maior clareza se atentarmos para o fato de que o médico não responde por si, mas sim à um corpo médico, onde há uma hierarquização pautada na quantificação dos diplomas. Neste sentido podemos entender o médico como apenas um instrumento do discurso médico, onde a equipe médica tem um lugar central. Podemos inferir que esta hierarquia de poder ocorre independente da extensão da equipe. (CLAVERL, 1983).
O objeto do discurso médico é a doença, e não o homem. O doente, na ordem médica, define-se pela soma de dois elementos: homem mais doença. Ou melhor, o homem se define como constituído pelo doente da qual a doença teria sido retirada. (CLAVERL: 73).
A entrada deste doente no discurso médico depende da nomeação de sua doença, ou seja – do diagnóstico. Este diagnóstico confere um sentido àquilo que antes era um puro não-senso. Ao doente, é pedido que relate apenas seus sintomas da forma mais precisa possível, a fim de favorecer a confecção do diagnóstico. Este é o pacto entre médico e doente. A consequência disso é que o discurso do próprio doente é abolido. (ibid, p.97)
Em contraposição, o psicanalista quer ouvir o discurso do Sujeito. Portanto, como nos indica Figueiredo (1997: 24) o pacto da Psicanálise é de outra ordem: "(...) O pacto analítico é um pacto da fala. A psicanálise é uma clínica da fala. Fazer falar é uma condição da escuta(...) ". Ao paciente, pelo psicanalista é pedido que fale sobre tudo que lhe passe pela cabeça.
O discurso médico anula qualquer questão não seja de sua ordem, como resultado muitos pacientes já ouviram a célebre frase " isso não é nada, o problema está ( só?) na sua cabeça". É somente diante da doença e do doente que o médico deve, sobretudo afirmar seu poder. "Nesses casos é a medicina, e só ela, que permite a cura" (CLAVERL, 1983:95).
Benoit apresenta uma idéia bastante interessante quanto a essa ideologia nomeando-a de "ideologia do curandeiro científico" sublinhando que esta ideologia é a responsável pela fama da medicina moderna. (BENOIT, 1988:30). Esta fama revela-se pelo estatuto imaginário que o médico adquiriu – aquele de fazedor de milagres – na realidade, o médico encarna o sujeito saber sobre a doença, onde o indivíduo é pronunciado dentro do discurso científico.
O discurso médico situa-se neste lugar de que sabe e pode tudo sobre o sujeito que tem que se conformar com a verdade do outro. Em contraposição, o discurso do psicanalista é caracterizado pelo lugar de objeto causa de desejo que ocupa, no qual o analisando é convocado a falar sua verdade que é marcada por sua divisão psíquica.
O encontro (confronto?) entre ambos os discursos ocorre, de maneira geral, nas instituições hospitalares. Como veremos adiante, a relação do médico com o hospital tal como o entendemos hoje – terapêutico – fez parte de sua constituição. Deste modo, o discurso médico é o predominante neste cenário.
A própria história do hospital é interessante, pois ele nem sempre teve a função terapêutica que possui hoje. No texto O Nascimento do Hospital, Foucault observa que antes do século XVIII, o hospital era apenas uma instituição de assistência aos pobres. O chamado "pessoal" do hospital eram pessoas que se preocupavam com a caridade, muitas vezes ligadas a ordem religiosa. Neste ambiente hospitalar eram justapostos doentes, loucos, prostitutas, etc., o que implicava em sua exclusão deste do convívio social. (FOUCALT, 1992:81)
A função terapêutica passa a ser exercida segundo Foucault no final do século XVIII visando a anulação dos efeitos negativos do hospital. Surge, portanto, um novo olhar no hospital considerado agora como máquina de curar.
Não houve um momento específico na história em que a Psicanálise passa a entrar no hospital, na verdade ela sempre esteve aí presente. Freud inicia seus estudos no Hospital Geral em Viena, indo estudar posteriormente na Salpêtrière na França.
Nesta máquina de curar, com tantas respostas para o sofrimento humano, a presença do psicanalista vem sendo cada vez mais requisitada, quer seja pela família ou pela própria equipe. Sabemos que a oferta gera a demanda. A questão que se interpõe ao psicanalista é que possa mostrar qual a sua função para que seja reconhecida sua especificidade. Tal função pode ser entendida com Alberti como:
"(...) não aquele que resolve problemas, nem aquele que se nega em atender qualquer doente por qualquer motivo, mas aquele que conjuntamente com cada sujeito que vem procurá-lo, seja pelo motivo que for, recolocará a demanda de tratamento, de modo que o sujeito possa vir a se engajar nele."
É preciso, portanto, que o psicanalista transforme a queixa do paciente em demanda de tratamento e, que a partir daí, o sujeito se implique e constate a partir de sua fala, a sua implicação nos sintomas. (ALBERTI, 1997: 25)
Essa conseqüente aproximação entre médicos e psicanalistas no hospital implica na coexistência destes dois discursos para o paciente, o que acaba refletindo em seu atendimento. O paciente, muitas vezes sente-se perdido, não entendendo o trabalho de um ou outro.
Portanto, este trabalho pretendeu delimitar os campos de saber da Psicanálise e da Medicina entendendo-os a partir da emergência de seus discursos. Não pretende com isso que os médicos saíam de seu discurso, nem que os psicanalistas inscrevam-se no discurso médico, e sim que ambos possam ter clareza da relevância de seus discursos para àquele que esta diante deles e que demanda que lhe abrande o sofrimento.
Desta forma, o analista orienta-se por uma ética segundo a qual não é possível estabelecer o que é o bem para o outro, pois o que o caracteriza o humano é ser marcado por uma falta estrutural que o constitui enquanto sujeito desejante, e para quem a plenitude do bem estar mostra-se da ordem do impossível. Para Lacan é com o seu desejo que o sujeito está comprometido e é pela sua enunciação que ele deve tornar-se responsável. Assim sendo, o esforço ético do sujeito será o de responder por aquilo que fala e diz e pelo desejo que habita sua fala e ação. Constata-se, portanto, que a ética do psicanalista em uma instituição deve ser sempre remetida ao seu discurso - discurso da analista - lugar de objeto causa de desejo que ocupa, no qual o analisando é convocado a falar sua verdade que é marcada por sua divisão psíquica.
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